O que quer dizer que talvez não te peça isso.
Ou, então, pede. Por isso, consegues, ainda que seja difícil e te apeteça muito pouco.
Prepara-te para tentar: pede ajuda, faz o que podes e confia em Deus, que fará o que não podes.
Jesus morreu por cada um de nós. A fé e o amor que nos unem, que Ele conquistou com a Sua morte e ressurreição, são muito fortes.
E, mesmo assim, continuamos divididos.
Achamos que cremos, amamos ou rezamos melhor que outros católicos. Que devemos ser tidos em conta, que os outros são soberbos. Há dois mil anos que não conseguimos trabalhar juntos.
Talvez seja assim por mais dois mil. Mas como é pela unidade que nos reconhecerão discípulos de Jesus, faz pelo menos a tua parte. Serve, sorri, cede e não desistas. Para que vejam Cristo em ti.
Espera que a Missa acabe. Espera que saia o sacerdote paramentado que foi Cristo no altar. As compras e o almoço podem esperar um bocadinho.
E lembra-te que acabaste de comungar. Ainda tens Jesus dentro de ti durante uns minutos. O que lhe costumas dizer? Como aproveitas esse tempo de intimidade? Como agradeces?
Não despaches Deus, que veio ao teu encontro sem pressa.
Dás muito valor à tranquilidade. Defendes-te do stress, nunca reages a quente, aprendeste a parar para pensar no passo seguinte. Tens os teus truques.
E isso é muito bom! Mas ainda não tens paz.
Agora contentas-te com ser uma pessoa calma, mesmo que fervas por dentro. Preferes fugir das complicações a enfrentá-las. Foges das grandes perguntas para que não compliquem a tua vida. Nunca arriscas nada com medo de perder a tranquilidade.
A paz é de Deus, que te diz quem és e como te ama. Muito mais que um auto-controlo, é deixar-se levar. Para o mar calmo ou para o mais agitado: se Ele estiver na barca, terás a Sua paz.
Tens técnicas apuradas para a oração, encontraste um modo irresistível de apresentar Jesus, sabes como a Igreja se deve posicionar, és profissional nas tuas iniciativas apostólicas, tens uma estratégia para mudar o mundo.
E deixaste de confiar no poder de Deus.
Já não contas com milagres, não esperas pelo sobrenatural, não confias na petição, já não te prostras, não vives de fé. Se a tivesses como um grão de mostarda...
Não te esqueças que é em Deus que acreditas. Aquele que te pede todo o esforço humano de que és capaz para O servir é o mesmo que pode resolver tudo sem que mexas uma palha. Só para lembrar.
Com estes defeitos e misérias? Com os erros que cometi? Com o bem que desprezei? Com as escolhas erradas do meu passado? Com os maus desejos do meu futuro? Com as oportunidades desperdiçadas? Com o mal que guardo no coração? Com esta incapacidade de perdoar?
Sim. Deus ama-me.
É o grande anúncio desta vida. É o que leva querer mudar tudo aquilo. É o único motivo de uma paz certa: não haverá nunca nenhuma razão para duvidar do amor de Deus por mim.
E que diferença isto faz!
A tua vida era segura. Boa no que fazias, feliz nos resultados, alegre entre amigos, serena em casa, risonha no futuro.
Mas cresceste. Aceitaste desafios e assumiste responsabilidades, entregaste o coração e deste o teu tempo, escolheste amar. E perdeste o controlo.
O futuro é incerto, as pessoas imprevisíveis. Duvidas de ti, da tua saúde, da tua virtude. Não dispões do teu tempo, tens medo de falhar.
Mas Deus é o mesmo. E, para teres segurança, pede que te abandones. Faz o que podes. Ele fará o que sabe.
Jesus pediu colo a São José, pediu que O consolasse e que O levasse à Sua Mãe. Pediu-lhe a mão quando estava escuro.
Pediu-lhe o que estava alto e onde não chegava, pediu-lhe que Lhe ensinasse o que ainda não aprendera, pediu-lhe a força que ainda não tinha.
Pediu-lhe água quando teve sede, pediu-lhe ajuda quando trabalhou, pediu-lhe segredo quando fez uma surpresa. E um abraço quando chorou.
Pede como Jesus. José dar-te-á como ao Menino. E fará que te dês como ele se deu.
Obrigado, Senhor, por ligares ao que digo. Obrigado por me recompores e ligares o que quebrei. Obrigado por me ligares aos que puseste ao meu lado. E por me ligares a Ti neles.
Que eu queira responder e ligar ao que pedes. Que seja agradecido porque me ligaste. Que saiba ligar os corações ao Teu.
Que eu nunca desligue a chamada. E se, por falta de rede a deixar cair, liga de novo.
Não és corajoso, muito menos temerário.
Mas há um mínimo que tens de ser capaz de fazer. Senão, nunca poderás assumir responsabilidades. E não há vida que não as peça.
Por isso, procura vencer-te nessas pequenas batalhas que pedem toda a tua bravura: dar uma opinião da qual podem discordar, guiar numa rotunda movimentada, dizer que não, fazer uma figura para alegrar alguém, olhar nos olhos, decidir, pedir donativos, declarar-se, ser sincero na confissão...
Se pedires, Deus ajuda. Estás em boas mãos.
E vês outros sem nada, mas alegres.
Não! O truque não está no equilíbrio, nem na moderação. Não está no pensamento positivo, nem na libertação dos desejos. Não está na alimentação, nem na vida ativa.
Está no sentido que tem a tua vida, que não descobriste se ainda tentas encontrar felicidade no que possuis. E esse sentido é dado por Deus, não pelo sucesso, a saúde ou o dinheiro.
Tendo Deus, tens tudo.
Tendo tudo, nada.
Já não sabes voltar para trás e achas-te incapaz de seguir em frente. Estás perdido, sem remédio, sem esperança. Não te vês digno de perdão, quanto mais de amor.
Mas Jesus viu-te. E deixou o rebanho seguro para vir à tua procura.
Aí está, ao teu lado, como se só existisses tu. Tem todo o tempo do mundo, uma compreensão sem limites e um coração inteiro para te oferecer.
Deixa-te encontrar.
Já deves ter ouvido umas bocas de como essa expressão é contraditória! Não dá para acreditar na necessidade de algo e, na prática, considerá-lo desnecessário. Mais vale dizeres, simplesmente, que não és católico, ainda que tenhas tido essa formação e guardes apreço pelos valores cristãos.
Mas o que fazia mesmo sentido era começares a praticar! Perceberias que a tradição católica a que pertences vem da revelação de um Deus que é amor, que te ama, com quem podes ter uma relação de confiança, que trará uma nova luz à tua vida.
E como não há nada que se compare a isso. E como estavas longe do que não praticavas. Volta.
Deus é, para ti, uma espécie de amuleto. Podes pedir-lhe tudo mas não Lhe ligas nada. Dá-te sorte mas não te dá deveres.
Pedes boas notas quando não estudaste, pedes azares para quem não gostas, pedes uma conquista quando estás comprometido. Até pedes pelo negócio em que queres fugir aos impostos!
E reclamas! Pelas doenças, pelas contrariedades, pelo mal que te acontece, naturalmente convencido que é injusto.
Esse, que tentas comprar, não é Deus. Deus é quem te criou e te chama com um amor infinito. Pede que lhe dês a vida inteira e quer dar-te muito mais do que tu Lhe pedes nos teus desejos egoístas.
Pede-Lhe fé.
Bonito. E verdade, no fundo.
Mas o amor não anda no ar: tens de o personalizar. E assim, personalizado, vem carregado de sacrifício. Quem amas? E como dás esse amor? Como te cansas, como entregas o que te agrada, como aceitas os defeitos e as fragilidades, como reconheces as tuas fraquezas?
Não é tirar-lhe a poesia, é vivê-lo na realidade. É esse o amor que conta, é o único que vale. Como o amor de Cristo, por ti, na cruz.