Tema: Carácter

O telemóvel fez de ti um bom ator.

Lês mensagens na oração mas parece que lês textos piedosos. Consultas notificações na Missa como quem vê as horas. Estás nas redes enquanto alguém fala mas parece que procuras dados importantes. Vives online durante as aulas mas é só para tirar notas...

Parece que tens muito trabalho, sempre a mil a tratar de coisas. E estavas só nos grupos!

Não aceites a duplicidade. Ninguém nota, todos fazem, ninguém se ofende. Mas tu sabes o que é mentira.

Havia conquistas que não eram para ti, virtudes inalcançáveis, defeitos que nunca pensaste dominar ou vencer. Havia uma chamada à santidade em que não te incluías, uma proximidade com Deus exclusiva de outros.

E ouviste, com surpresa, que também podias, que tinhas o talento e a ajuda, que fazias falta, que contavam contigo.

Fez toda a diferença.

Deus acredita em ti. Alguém acreditou também. Faz o mesmo.

Não é que não o sejas, mas preocupas-te. E invejas os que não se preocupam com o pecado.

Tens inveja do que tem melhor nota porque copia, e do que conquista porque é falso, e do que ganha porque rouba. Sentes-te obrigado a ficar para trás, a não desfrutar tanto.

Mas não estás bem quando estás com Deus? És amigo de Cristo ou é por medo que O segues? Desfrutas quando tens o mesmo que os outros ou quando tens paz na consciência?

Sabes onde está a verdadeira alegria. Mas continuas a enganar-te com as promessas fáceis de felicidade, com o consolo de ficar à frente, de ser admirado. Se vivesses por amor, não desejavas tão pouco.

Usas demasiado esta desculpa. Não sabes, não tens jeito, os outros fazem melhor. Sobretudo para tarefas que não queres fazer, que não dão gosto. Ou que não são próprias da tua condição!

Quem sabe, aprendeu. Também podes aprender.

Não é preciso um curso para mudar uma lâmpada, nem para limpar a travessa que caiu inteirinha no chão, nem para fazer um telefonema.

Talvez nunca aprendas a cantar! Talvez não sejas mestre onde não tens jeitinho nenhum. Mas podes, e deves, fazer muito mais: não te falta talento, falta generosidade.

Que fácil dizer mal dos outros! Não com rancor, mas com sentido de justiça, exigindo.

Podiam ser mais atenciosos, mais delicados, mais comprometidos, mais esforçados. Deviam ser. E vivemos socialmente dececionados.

No meio de tanto lamento, esquecemo-nos de nós, do nosso carácter! Quantas vezes não fomos descuidados, bruscos, levianos, preguiçosos? Nem sabemos. E que falta faz recordar!

Olha para ti, examina a tua vida e pede perdão a Deus por essas faltas de amor. Depois exige-te, tira propósitos. "Sê o que queres que os outros sejam e verás que já o são."

És muito pessimista. Isso é mau e desanima-nos.

Às vezes exasperas. É que não há razão para dizer que vai correr mal, se fizeste com tempo o que devias ter feito. Nem para dizer que há problemas quando ainda não tens sinais deles. Nem que está tudo errado quando estão todos tranquilos.

Vive com o otimismo da fé, como quem faz as coisas para Deus. Trabalha com esforço e responsabilidade e deixa os frutos nas mãos do Senhor. Olha para o que os outros suportam e ajuda-os a ver primeiro o que é bom.

Deus não perde batalhas. Não as perderás se estiveres do Seu lado. Sê realista, contando que Deus vê as coisas melhor do que tu. E não estragues o ambiente por ter medo de falhar.

És muito otimista. Isso é bom e dá-nos ânimo!

Mas às vezes exasperas. É que não há razão para dizer que vai correr bem se não fizeste o que devias ter feito. Nem para dizer que não há problema quando os outros estão cheios deles. Nem que está tudo bem quando estão magoados contigo.

Vive com o otimismo da fé, não com intuições e fezadas. Trabalha com esforço e responsabilidade, não com palpites e sorte. Olha para o que os outros suportam, não para o teu umbigo.

Deus não perde batalhas mas tu perdes. Se não fores realista, acabarás por não dar luta às que podias vencer. E atropelas alguém.

Não te importa ser bom, agir bem, fazer o que está certo. Apenas ser bem visto.

E vais à confissão arrependido do que viram, não do que fizeste. Dói-te mais que vejam as tuas fraquezas do que virar as costas a Deus. Acabas por pecar para ficar bem.

E vives com medo dos homens e de Deus.

Olha para a cruz. Pensa no que Jesus te oferece e como o recusas. Pede-Lhe amor e dor de amor. E agradece o Seu olhar constante, atento e amoroso, sobre ti, tão diferente do teu olhar sobre os outros.

Os transportes, a indisposição, a insónia, o esquecimento...

Depois de tantas vezes já percebemos que o problema não está em nada disto. É a tua falta de interesse, de trabalho e de previsão. Desculpa: no fundo, pensas em ti.

Ninguém to disse, mas parece que mentes. Talvez primeiro a ti próprio. É que achas sempre que alguém, com pena, fará por ti o que tens de fazer.

E ser adulto?!

Bonito tempo de descoberta e crescimento. De conhecer-se e de enfrentar medos. De crescer em liberdade.

Que pena se se consome na construção de um mundo oculto, numa interioridade irreal, numa vida de pecado escondida, dupla, numa relação de medo com os outros.

Tu já não és adolescente nenhum, mas tens a mesma tentação de te refugiares no que controlas, de mascarar os teus defeitos, de estar apenas no que podes assegurar, de viver como não és, longe dos olhares verdadeiros.

Cresce. Sai de ti mesmo ou serás um eterno adolescente. E os que vierem depois porão os olhos em quem?

Tens no coração o bom desejo de levar a mensagem de Cristo a todos, sem exceção. Mas meteste na cabeça a ideia de que, para o conseguir, deves aguar essa mensagem, tirar-lhe radicalidade, omitir o que choca.

Por isso, não dizes nada. Só o que é simpático e consensual. Até gostam de ti, mas quando se ouve o que dizem todos, tanto faz quem se segue.

Não desfigures o rosto de Jesus, não mudes a Sua mensagem. Muda tu: em compreensão, em generosidade, em simpatia, em caridade. E em coragem! Assim poderás chegar a todos, dizendo tudo.

É claro que tens lutas, com vitórias e derrotas. Mas isso é diferente de escolher ser diferente em momentos diferentes! Só para ficar bem.

No trabalho és atento, em casa não. Em casa és católico, com amigos não. Com amigos tens estilo, na igreja não. Na igreja és comprometido, na noite não. Na noite tens energia, para ajudar não. Ao ajudar és crente, no Instagram não.

Qual deles és tu? Já sei que o ambiente é difícil mas, se não escolhes ser coerente, aceitas ser traidor. Se te dizes católico, mostra-o.

Por coisas de nada! Uma ideia que não passou, um deslize que outros viram, a sensação de não ser tão estimado, um desejo que não viste satisfeito, a expectativa que não cumpriste.

Perdeste. E deixas-te cair na tristeza, no papel de coitadinho, por coisas que são pouco mais do que orgulho ferido.

Jesus, que esqueceste por momentos, está a tentar dizer que não foi derrota nenhuma. E que, ainda que fosse, está ali para te levantar.

Estende a mão. Não vale de nada procurar consolo longe de Deus.

Não és corajoso, muito menos temerário.

Mas há um mínimo que tens de ser capaz de fazer. Senão, nunca poderás assumir responsabilidades. E não há vida que não as peça.

Por isso, procura vencer-te nessas pequenas batalhas que pedem toda a tua bravura: dar uma opinião da qual podem discordar, guiar numa rotunda movimentada, dizer que não, fazer uma figura para alegrar alguém, olhar nos olhos, decidir, pedir donativos, declarar-se, ser sincero na confissão...

Se pedires, Deus ajuda. Estás em boas mãos.

Os mais novos vivem de esperança: têm pouco passado e muito futuro pela frente.

Tu já viveste uns aninhos mas acreditas na vida eterna: tens algum passado e um maravilhoso futuro pela frente.

Por isso, poderás ser sempre jovem, com a simplicidade e o ímpeto de quem se sabe amado. Mas não tens de aparentar!

Nem disfarçar: não estás velho, só experiente. E pronto para o que Deus quiser.

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