Tema: Confissão

Achas a vida cristã muito difícil. Até a desejas mas nunca tens forças, não tens vontade, não tens coragem. O mais simples gesto de generosidade é um esforço imenso para ti.

Mas quando tens algo a ganhar, és forte. Não falhas uma festa, nem o ginásio, nem o que te põe no centro das atenções.

Olha, confessa-te e tenta andar habitualmente confessado, na graça de Deus. Já percebeste que essas semanas todas a atrasar a confissão te deixam doente da vontade. E começas a desprezar o pecado: só mais um, só mais outro...

Não te confesses quando der jeito, mas quando precisares. Logo que precisares. Consegues, sim, ainda que te custe. É mais importante que o resto do que tens para fazer. Não sejas tão desprendido de um Deus tão misericordioso.

Um novo bebé é a maior alegria. Pensar que Deus nos faz participantes do Seu amor criador, que nos confia nos braços a Sua obra maior, é de enlouquecer!

E cada nova vida, cada novo dom, que nos amedronta e deixa atrapalhados, é o que faz florir o melhor de cada um. Felizes pais.

Também é assim na nossa fé: o batismo é um novo nascimento. Uma vida nova, que Deus nos confia para a ajudar a crescer. Felizes os que cumprem espiritualmente essa paternidade. E que nos guiam para nascer de novo em cada recomeço.

É normal que nos custe admitir os erros. Mas que alegria quando os entregamos a Jesus na Confissão.

Por isso, desconfia de ti mesmo se pensas muito no modo de referir um pecado. Que é melhor dar o contexto todo, explicar não sei o quê, que havia outros, começar de modo suave, que não pareça habitual... Tens medo que o sacerdote fique com uma imagem de ti demasiado má.

Diz de uma vez! Perante uma pessoa simples, que admite humildemente os seus erros, não há outra reação que a admiração. E não é ao padre que te confessas: é a Cristo. Ele sabe bem o que queres dizer.

Mas se não fores capaz de o contar sem dar as voltas, dá as que precisares!

Não haverá nunca pecado que Deus não queira perdoar-te. Não haverá nunca momento algum em que Deus deixe de procurar-te. Não haverá nunca nada mais forte que o Seu amor. Espera sempre na misericórdia divina.

Mas não abuses. Deus quer contar com a tua liberdade, que O ames em resposta. Se não mostras que O queres, não O terás.

Neste Natal começa de novo: confessa-te.

Os teus pontos de luta são elementares, pequenos, fáceis. São os mínimos, são simples. É só fazer.

E, contudo, não és capaz. Não percebes: vês com clareza o que deves mudar, mas não mudas. Tens o desejo de ser diferente, mas deixas andar quando chega o momento. Não dás importância, não mudas de atitude. Tens a vontade avariada.

Três conselhos. Abre a tua alma com sinceridade deitando cá para fora tudo o que te inquieta, ou te envergonha, ou te assusta. Pede mais ajuda a Jesus e conta com a Sua força, não com a tua. Não te compares se, comparando-te, tens pena de ti próprio: Deus acredita em ti e quer-te feliz e santo.

Se não resultar, vai ao médico.

O que fazes? Talvez nada de especial, se procuras viver preparado.

Ou talvez te dê a pressa: precisas de te confessar, pedir perdão a quem magoaste, agradecer a quem foste ingrato, repor uma verdade, recuperar a honra de alguém, receber Jesus na comunhão e abandonares-te nos Seus braços.

É provável que vivas mais. Mas por que não fazes já tudo isto?

Não para te vangloriares como se fosses um gangster!

A quem contas as quedas que te envergonham? A quem explicas as tuas fraquezas, para que te ajude a lutar? Com quem abres a alma depois de um trambolhão?

Primeiro na confissão.

Mas também te ajuda ter um bom amigo que te ouça, que te anime e que exija de ti o que podes dar. Continuará a custar-te falar das asneiras, mas o caminho é mais difícil se o tentas fazer sozinho.

Alguém à frente de quem possas chorar à vontade, sem defesas nem disfarces. Não é lamechice, é amizade. Precisas, precisas...

Foste avisado, preveniram-te, ofereceram ajuda. E desiludiste. Caíste com força na lama, onde ficaste a rebolar, afundando-te na própria miséria.

Nem tens coragem de aparecer. Estás envergonhado, querias fugir e esconder-te, encontrar qualquer desculpa. Nunca um erro te pesou tanto.

E Deus?

Que Lhe disseste? Que ajuda e perdão pediste? Lembras-te do filho da parábola, que fez pior que tu e que o pai esperava à porta? É isso que conta, não o juízo da multidão.

A consciência da fraqueza far-te-á confiar em Deus e a vergonha de seres visto no chão é uma ajuda para a próxima luta. A contrição, dor de amor, pode levar-te mais longe do que podias antes.

Confuso? Nossa Senhora explica isto bem.

É difícil perdoar. Custa largar a dor a que nos prendemos para encontrar consolo.

E mais difícil ainda reconhecer a necessidade de perdão. Admitir a própria fraqueza –ou maldade! Aceitar que não temos razão, que mentimos, que humilhamos, que usamos, que temos uma intenção retorcida.

Somos prudentes a esconder erros e astutos a procurar razões. Interessa-nos ocultar as faltas. Já pensaremos na culpa...

Mau caminho o que escolhe o orgulho em vez da esperança.

Foram os pecados dos homens que pregaram Jesus à cruz.

–Não os meus, que são poucos, mas desses outros pecadores. Eu preocupo-me por não prejudicar ninguém: isso é que é um verdadeiro pecado. E a isso é que a Igreja devia estar atenta, sem se meter na vida privada de cada um...

Desculpa insistir: os pecados que pregaram Jesus à cruz foram os meus e os teus. O orgulho, a murmuração interior, os julgamentos, a indiferença a Cristo, o desprezo da Igreja, o desrespeito pelo que é divino, a inveja...

A dor pelos pecados é o caminho que o amor procura para se converter e não perder a alegria. Contentar-se com ser, aparentemente, boa pessoa é o mesmo que não ter fé. E não perceber o que aconteceu na Páscoa.

Assim em geral! Fazes cara humilde e pareces arrependido.

Talvez te perdoem, mas não te arrependeste: não podes arrepender-te de coisas vagas. Não pedes desculpa para ficar bem, mas para reparar o que fazes mal. E isso é muito concreto.

Como deve ser a tua confissão.

É fácil dizeres-te mau e fraco, que te falta tal virtude ou qualidade. Difícil é reconhecer aquele pecado que te envergonha muitíssimo e de que sabes até o dia e a hora, o número e o motivo.

Mas é desse que queres arrepender-te! Sê claro.

Que se deixou cravar na cruz em vez de ti, que te dá sempre uma nova oportunidade, que espera o teu regresso a cada instante, que te deixou um modo fácil de obter o Seu perdão, que desculpa e esquece o que confessas arrependido, que não te deve nada e suplica o teu amor... Só mesmo Deus.

E tu não te confessas.

Estamos na quaresma. Deixa-te de teorias, faz uma boa confissão e agradece e Deus a Sua espantosa misericórdia. Sem ela, estavas bem tramado!

Enganas-te muito por decidir rápido, sozinho e com paixão. Estás demasiado perto para ver com objetividade o que se passa. Precisas de tempo, de calma e de pedir ajuda a alguém.

É um perigo. Nem a noção de um Deus malvado é verdadeira, nem um ideal perfeccionista permite amar um Deus que perdoa.

Mas é importante a consciência do pecado, a sensibilidade de quem sabe poder ferir: eu erro, eu peco. Porque quero.

A culpa pode causar dor. E esta cura-se com o perdão, não com a leveza de consciência que  justifica tudo com as dificuldades. E exige de Deus que as aceite.

Ofendi Deus. Isso dói-me porque O amo. Não dói se não O amo.

Dá-me, Senhor, a delicadeza dos corações enamorados e a coragem da sinceridade na confissão. Sem obsessões, com amor.

*

Amanhã festejamos a Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Têm boa impressão de ti. Contam contigo para muitas coisas. Para alguns até és uma referência.

Mas tu conheces-te. Sabes que tens misérias e que não és metade do que te pintam. E sentes-te a representar um papel, com medo de uma tremenda humilhação se o descobrirem.

A verdade é que és bom ator. Tens algum gosto –até talento!– para o fazer. Por isso, é bom que Deus te mantenha consciente de que és pobre, não vá subir-te à cabeça o aplauso da plateia.

Dá-te a conhecer com simplicidade na confissão e no acompanhamento espiritual. E sempre que a vaidade reclamar para si o papel principal, diz ao Senhor que queres agir bem sempre e só por Ele.

Agora deves servir nesse palco. Não és estrela nenhuma, mas não há mais ninguém!

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