Tema: Ordem

Voltaram. O mesmo horário, os mesmo hábitos, a mesma cara ensonada, o mesmo tupperware, a mesma pressa, o mesmo trânsito, o mesmo beijo, os mesmos rostos, as mesmas orações...

O mesmo Deus à tua espera em todas essas obras, que podes viver com alegria, pondo amor em cada uma. E em vez de repetições, farás gestos únicos.

A rotina também te equilibra, dá espaço ao que é importante, mantém-te no caminho, com passos serenos e seguros.

Não esperes coisas extraordinárias: aprende a crescer na perseverança.

Sabemo-lo tão bem e continuamos a cair na armadilha. Quantas vezes és dominado pelo telemóvel, pelas redes sociais, pelo trabalho, pelo dinheiro, pela comida...

E já farto dessa escravidão, dás-te conta do tempo que perdeste, do egoísta que foste, da saciedade que as coisas prometem e nunca dão.

Aprende a viver em liberdade. Não te deixes enganar por necessidades inventadas, urgências irreais, fomes momentâneas. Podes viver com menos e ganhar tempo para Deus e para os outros.

E podes ser mais lento, menos eficaz, se for o preço de não ser escravo. Larga coisas, oferece-as, deita-as fora. Domina-te.

Tens outras aspirações para a tua vida cristã. Sabes que podias dedicar mais tempo à oração, à leitura, ao apostolado... Podias ter outra luta e tens esse desejo.

Mas a fase em que estás, complicada na universidade, deixa-te inquieto. Quando passar este tempo difícil, esperas fazer mais por Deus.

E depois vem a fase do primeiro emprego, depois a do casamento, depois a dos filhos, depois a mudança de casa, depois aquele projecto, depois a doença de alguém, depois novo emprego, depois...

Deus caberia em todas as fases da tua vida. E poderia ser prioritário sem que perdesses coisa alguma. O problema não está nas circunstâncias, está em ti. Põe Deus primeiro.

É assim a tua vida cristã. Não consegues ver uma boa iniciativa sem ir atrás, tens um pezinho em várias espiritualidades, até dizes o que tiras desta e daquela.

Mas gostas de todas. Em todo o lado tiveste momentos tocantes, que partilhas com paixão.

Várias vezes, parece que te entusiasmas com um caminho. Mas não. Ainda estava fresco quando experimentaste outro, que te roubou o sentimento.

Sabes muito, vais a tudo, conheces todos. Dás graças a Deus por receber tanto. Mas olha, o que já deste?

Não consegues chegar a tudo. Dizes que não tens tempo, mas o que não tens é cabeça e coração para tanto. Normal! É difícil estar entusiasmado com várias coisas em simultâneo. Tens de escolher.

Só que escolheste as preferidas e desleixaste os deveres. Não digas que não tens tempo para a família, ou para estudar, ou para os amigos, ou para Deus. Revê as prioridades do teu coração, porque talvez não tenhas tempo para outras coisas, por muito boas e santas que sejam.

Quando queres, tempo arranja-se.

Não gastas muito, não bebes muito, não dás muito... mas é tudo de uma vez. Tens uma falsa ideia de temperança. Na média és como os outros, mas guardas, guardas, guardas... para ter tudo num segundo.

Parece que te controlas: ir acumulando exige algum domínio. Mas pela avidez com que te atiras aos prazeres, percebe-se que estás igualmente agarrado.

Com um verdadeiro domínio, aprenderias a tirar alegria do que é pequeno e simples, prazer do pouco que tens e poderias não ter, e uma verdadeira felicidade em partilhar com os outros, mesmo quando falta para ti.

Se te entregas mas procuras compensações, se preparas para ti o próprio prémio, se exiges pagamento por te portares muito bem... já recebeste a tua recompensa.

Só para recordar que o facto de estares de férias não é de todo, nunca, razão para faltares à Missa.

É que a razão para ires é de todo, e sempre, maior.

Nem percebo que o discutas. Agora que tens tempo e cabeça para estar com Cristo realmente presente no altar, inventas outras prioridades?

Guarda algum deste tempo para meditar no que acontece em cada Missa. E participa com o amor e a devoção da primeira, única e última vez.

Eles esperam porque tens de acabar qualquer coisa, eles mudam planos porque te dá mais jeito, eles complicam a vida porque tu te atrasas.

Iam ser 20 minutos mas decidiste que seria uma hora, estão com pressa mas tu não reparas, têm muito que fazer e tu não ligas.

Que mudem as agendas para se adaptar à tua. Como se dispusesses do tempo dos outros, porque o teu é mais importante.

Antes que fiques definitivamente só, começa a dar valor ao que os outros fazem.

A paróquia, o movimento, a missão, os 3 campos de férias, o grupo mensal, o voluntariado, as peregrinações, os coros, os eventos, os projectos... Estás em mil coisas católicas, todas muito boas, todas ligeiramente diferentes.

Fazes bem em todas elas. Mas o que te faz bem a ti?

Não estás comprometido em nenhum lado (nem daria, não podes ter tempo). Não conheces a fundo nenhum desses caminhos (por muita admiração e amizade que lhe tenhas). Não trabalhas (deste prioridade à agitação social). E confundes oração com atividade.

Não tens dado a Jesus nenhuma exclusividade, andas disperso e baralhado. Escolhe o que quiseres, larga o resto.

Não tens, por vezes, a sensação de estar a embrutecer? Ficas horas a consumir conteúdos inúteis. Dá para rir, passar o tempo, aprender umas curiosidades... mas não fica nada.

E vais perdendo a vontade de ler, tens dificuldade em formar opinião, preferes mudar de tema quando a conversa é séria, dizes coisas com piada mas nunca interessantes, tens menos recursos para pensar, explicas-te mal.

Não deixes que as distrações sejam o que te forma. Com disciplina, tira-as do tempo de trabalho, vai mais fundo no que tens entre mãos, estuda, interessa-te.

Podes mais, não sejas básico.

Afinal não posso, tenho uma Missa. Não deu, tive direção espiritual. Desculpa o atraso, o senhor Padre pediu-me uma coisa.

As razões não valem mais por serem religiosas. Se tinhas marcado, ias. Se estás comprometido, cumpres.

Não, não puseste Deus em primeiro. Puseste a tua desordem e o comodismo que aproveita "desculpas de peso". E esse refúgio religioso, que usas para falhar ao que prometes, não traz à Igreja nenhuma simpatia.

Não sejas clerical.

Tens que acelerar, entrar no ritmo. A ponderação é coisa de outros tempos.

Profundidade? Sentido? Descomplica, tens que entregar. Se te mexeres muito parece que fazes bem: é o que fazem todos. Vamos, produz! Não fiques para trás...

Mas tu sabes que não te encostas. Tentas fazer bem feito, queres dar prioridade a Deus, à família e aos amigos, vais a fundo no que tens entre mãos. Pensas, estudas. E acham que não trabalhas!

Se podes, fica tranquilo. É preciso segurar esta gente!

Não tens tempo para Deus. A vida é intensa, o trabalho imenso, a família absorvente. Não consegues parar para rezar.

Tens boa vontade e vais tentando lembrar-te do teu Senhor ao longo do dia. Podes encontrar Deus nas tarefas e azáfama habituais.

Mas também notas que te fazem falta os tempos dedicados exclusivamente a Ele. E que, com um pouco de ordem, conseguias rezar um terço, visitar Jesus numa Igreja ou ler um pouco do Evangelho. Antes de tudo? No tempo de almoço? No fim?

Se não encontras tempo para as coisas importantes, perdes-te no urgente. Que às vezes nem o é! Só uma mistura de perfeccionismo, desordem, vaidade... e desculpas para o que te apetece.

Dás muito valor à tranquilidade. Defendes-te do stress, nunca reages a quente, aprendeste a parar para pensar no passo seguinte. Tens os teus truques.

E isso é muito bom! Mas ainda não tens paz.

Agora contentas-te com ser uma pessoa calma, mesmo que fervas por dentro. Preferes fugir das complicações a enfrentá-las. Foges das grandes perguntas para que não compliquem a tua vida. Nunca arriscas nada com medo de perder a tranquilidade.

A paz é de Deus, que te diz quem és e como te ama. Muito mais que um auto-controlo, é deixar-se levar. Para o mar calmo ou para o mais agitado: se Ele estiver na barca, terás a Sua paz.

Não contavas com o que te aconteceu, nem com o que te disseram. Pensavas-te mais fiável, mais responsável.

E ficaste paralisado. De repente és muito pior, todos pensam mal de ti, o futuro tem pouca saída...

Calma! Não aconteceu nada. É bom perceber o que podes melhorar, é bom ter quem to diga com frontalidade. Ninguém ficou a pensar que eras uma pessoa diferente por teres feito um erro.

Não te precipites e não exageres: agarra o desafio, com tempo. É assim que se cresce.

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