É o que te preocupa quando falas, quando chegas a algum sítio, quando conheces alguém, quando tens responsabilidades.

Não desfrutas do convívio porque tens na cabeça o juízo dos outros. Detestas surpresas porque não sabes como vais reagir. Medes as palavras pelo impacto que vais causar. Não ajudas porque podem não aceitar-te.

Estás a pôr a tua imagem à frente do bem que podes fazer. E, provavelmente, a julgar demasiado.

Larga esse vício. Sabes bem que não tens muitos motivos para que te admirem. E que Jesus não precisa deles para te amar muito mais do que tu a ti próprio.

Tens imensos talentos, boas ideias, iniciativa. Entusiasmas-te com facilidade e lanças novos projetos.

Sem continuidade.

Quando chega a parte chata, as tarefas repetidas, a necessidade de insistir, a formação dos que te substituirão, perdes a paciência e ocupas-te em novidades.

Já fazes um grande bem. Imagina se fosses constante.

Deixa os bons projetos ganhar peso e profundidade, não te prendas nos frutos imediatos, dá tempo ao que pode amadurecer. Faz menos. Bem feito.

Tens muitas ideias sobre a Igreja, muitos planos e soluções, muitas certezas, muitas opiniões.

Mas ouço-te falar de vendas, de sociologia, de psicologia, de política, de posicionamento, de estratégia, de história, de comunicação, de moda... e nunca de Jesus.

Não deixes de falar de nada, mas não o sobreponhas ao essencial. Ainda que sejamos peritos em muitas coisas, se não damos Jesus Cristo, estamos a perder o tempo.

Jesus, não sei fazer mais, não posso estar mais perto, não tenho mais ideias.

Digo que o deixo nas Tuas mãos para tentar tranquilizar-me. Mas continuo inquieto.

Repeti-lo-ei. E acrescento às tuas mãos a própria inquietação.

É mesmo. A Igreja está cheia de loucos. Está cheia de pessoas sem jeito para se relacionar, cheia de excêntricos. Cheia dos que repelem porque chocam os sentidos. Cheia dos que ficaram sós e não têm outro lugar. Está cheia daqueles de quem foges, dos que evitas, dos que nunca escolhes.

Sentou-se um deles ao teu lado na Missa. O teu corpinho asseado, sensato e digno sentiu-se desconfortável.

Mas tiveste inveja do louco: ele, predileto de Deus, também estava entregue sobre o altar.

Talvez possas sujar mais as mãos e aproximar-te dos que o Senhor uniu à Cruz. Afinal, vais à Igreja fazer o quê?

Não tem vergonha mas também não dá nas vistas. Não deixa de dizer o que pensa, com serenidade. Ouve sempre. Fez coisas incríveis e ninguém sabe que as fez. Tem uma profunda vida interior, só conhecida de Deus. Sofre mas traz sempre um sorriso no rosto.

Não tem jeito para a multidão, nem sequer para o grupo, mas todos querem que esteja. Não fala de si, pergunta pelos outros. Carrega os problemas de muitos e entrega os seus a poucos. E a Deus.

Não pergunta por curiosidade, não conta o que lhe contaste. Não alimenta boatos, não critica pelas costas.

É tão suave a discrição.

Os que ouviam Jesus admiravam-se com a Sua autoridade. Falava-lhes de um modo novo, cheio de convicção mas, sobretudo, de caridade.

A autoridade que entusiasmou as multidões que seguiram o Senhor, foi a mesma com que falou desde a cruz, já sem o aplauso do povo, mas cheio do mesmo amor.

Podemos voltar a falar de Deus com autoridade. Não como a estratégia dos que querem vencer, derrotar, humilhar. Mas como Cristo, que quer servir.

Isso sim, é admirável!

Sabes que fizeste asneira, mas os outros também fizeram. O resultado foi mau, mas estava na média. Não precisas de tanto, mas os outros também têm. Não tens direito, mas choras porque alguém tem.

Não lutas pelo bem, apenas pelo que os outros lutam. Não evitas o mal se mais ninguém o evitar. Só ajudas o que os outros ajudam. Só corriges o que é diferente. Vives tranquilo, por comparação.

Cuidado, os teus pecados são teus, não são dos outros. Acorda, és único para o amor de Deus.

Jesus levaria a Cruz se só existisses tu.

A mensagem que a senhora à tua frente está a escrever não é para tu leres. O mail que viste no computador aberto de alguém não é para ti. A conversa do casal na mesa ao lado não te diz respeito.

Tens sempre as antenas ligadas, prontas a intrometer-se na vida pessoal dos outros. Informação é poder. Queres ter coisas para contar.

Recolhe-te, não sejas frívolo, mete-te na tua vida. Se não respeitas a intimidade dos outros, também não respeitas a tua. E, sem intimidade, não és ninguém.

Dizes que és tu que escolhes o que vês, que o teu interesse manda, que a tua cabeça é livre. Mas pareces tão apanhado na rede...

A tua ideia de alegria foi moldada pelo Tiktok. A tua ideia de sentido foi moldada por superstições. A tua ideia de amor foi moldada pela pornografia. A tua ideia de vida foi moldada pelos famosos. A tua ideia de prazer foi moldada pela publicidade. A tua ideia de beleza foi moldada pelas redes sociais. A tua ideia de compromisso foi moldada pelo Tinder. A tua ideia de virtude foi moldada pelo politicamente correto. A tua ideia de felicidade foi moldada por agências de viagens.

Se és tão livre como dizes, resiste. Podes escolher outros modelos. Ter uma ideia de Deus moldada por Jesus Cristo. E moldar, assim, tudo o resto.

No dia do teu Batismo houve uma grande festa no Céu. Foste revestido de Cristo, incorporado ao Seu corpo. A tua alma ficou limpa e cheia do Espírito Santo.

Também houve festa na terra. A confiança de te entregar nas mãos do teu pai Deus, deixou os teus pais e padrinhos descansados, enquanto renovavam o propósito de te ajudar a seguir sempre os passos de Jesus.

No dia em que recordamos o Batismo do Senhor, recorda o teu. Agradece a Deus que te trouxe à fé, aos que guiaram os teus passos até aqui, à Igreja que te recebeu como mãe.

Pergunto-te mais tarde qual é a data do teu batismo. Tens tempo para não passar uma vergonha!

És o centro da tua atenção. Se fizeste bem ou mal, se tens saúde ou estás a morrer, se foi sobre ti ou sobre outro, se estás atraente ou horrível, se repararam ou não, se ficaste bem ou mal.

Eu sei que não é uma luta interior fácil porque serve de pouco lutar contra a imaginação: tens de ocupar a cabeça com algo maior.

Vai ter com os outros. Serve, reza por eles, dá o teu tempo, ajuda-os, faz voluntariado, preocupa-te.

E ficarás sem tempo para as mil complicações que o egoísmo te sugere.

Não é o teu único consolo? Não é quem dá sentido à tua vida? Não é Quem te salvou? Falas assim tão pouco com aqueles amigos que são um bocadinho disto?

Como se Deus tivesse que dividir o Seu tempo para estar um bocadinho com cada um e só pudesses estar com Ele por marcação. Ou no horário de atendimento urgente!

Jesus está sempre disponível. Não se trata de tentar falar muito, mas de nunca O largar.

Tens de resolver o assunto, não suportas essa incerteza, é preciso fazer alguma coisa.

E és precipitado, erras na resposta e tens o dobro do trabalho. Ou até acertas, mas com tanta pressa que o resultado fica muito aquém do que poderia ser.

Deixa-te estar com o peso às costas mais um bocadinho. O suficiente para rezares, pensares, pedires opinião.

Não deixes que a virtude de levar ideias para a frente se transforme no defeito de deixar tudo mal feito.

Aparentemente, pedes conselho. Na verdade, procuras aprovação.

Deixaste de perguntar a quem te chamava à razão e vais sempre ter com quem te apazigua a consciência.

E assim manténs os teus apegos, as tuas manias, os teus defeitos, os teus erros. Há sempre alguém que te consola e te puxa para longe dos que te amam e que, por isso, querem o melhor para ti.

É bom ter quem nos diga que precisamos de conversão. E que não diga, por fraqueza, que está tudo bem quando não está.

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